Saudades


Tu, ninfa inpiradora de meus sonhos

Causa única de dissabores mil e alegrias

A soberana de almas nos altos das montanhas frias

Meus olhos, por saudades tuas, já estão tristonhos...


Tu, que espinhos já sentiste do Calvário

Assim como eu, mísero pedinte, o provei

Com a intensidade mesma da que te amei

Ouve meu brado de dor plangente pois por ti desvario.


Escuta (sincera confissão de enamorado):

"Enquanto tu estás bem para lá de onde o sol nasce.

Meu ser cheio de esparsa tristeza enlouquece

E choro o anseio de estar a teu lado. set/59


O Solitário


Meu coração encerra-se entre barras imaginárias

E por mais que os sentidos procurem

Um rosto na multidão, uma face límpida pelas ruas,

Nada...

Trilharei ermo as alamedas da existência!!!

Solidão!

...

Andei por entre as mais belas ninfas,

Meus olhos, porém, não te encontraram...

Perscrutei um sem número de olhares,

eles porém nada espelharam...

...

...

... Amanhã

quando nas avenidas passares

talvez vejas um louco sonhador obcecado

bradando ao mundo o desejo de achar seu eu!... 20/jan/60


Pedido


Beija-me, amor

meu ser vibra de desejo,

vem, não perca o ensejo;

beija-me, e esqueça toda a dor.


Sentirá, no precioso momento

em que juntares nossas bocas

um misto de volúpia e encanto

que afastará todo o teu tormento.


Beija-me, amor

com o tempo o passado perderá o sabor

és tão jovem!... tire as lembranças da mente

pois temos um vida inteira pela frente. 05/fev/60


Reflexão


E ela veio, toda de branco

em meio à claridade matinal

alegre, difundindo sorriso,

olhos acesos; toda jovial...

Mas, naquela simples candura

de gestos, de porte, de olhar,

talvez se escondesse, escura,

a sombra de uma noite bem vivida! 05/maio/60


Análise


Foi tudo simplesmente.

Teu olhar procurou algo indeterminado,

impalpável e fervoroso no meu olhar,

eu acedi ironicamente,

sorriso tradutor do obstinado fatalismo

de existência comicamente insípida.

E o frenesi de mãos unidas em momentos esparsos

não trouxe contentamento e jovialidade,

alegria e leveza; não!

trouxe até uma tênue tristeza

mas onde transbordava serenidade e satisfação.


Um beijo


Desejo um só beijo teu; nada mais

já que não me confias mais nada.

Depois, findo o instante da grandiosidade,

ressequido o sabor dos teus lábios,

disperso o aroma de tua boca,

irei.

Irei com a lembrança desse rápido beijo, leve,

uma banal união de lábios em torvelinho,

um estalar de línguas sem importância,

que extasiará, dará paladar, perfumará

as rotas futuras de minha vida.

É o que unicamente te peço:

- um só beijo, nada mais.... 08/jan/60


Negação


Se conhecesses a minha ânsia

o desejo irresistivelmente obscuro

pela vertigem do primeiro beijo,

essa louca sensação inédita

de desfolhar dos teus lábios em flor,

a percepção do perfume de tua boca,

o gorjeio de tua língua em fuga feminina

à voragem da minha,

o cerrar fremente dos teus cílios negros e finos,

refúgio oculto dos teus mistérios

certamente tu me negarias. 09/set/60


Retrospecção


De tudo o que passou me resta

apenas a lembrança fugidia

de dois olhos profundos, negros,

envolvidos pelas trevas de minha memória.

O nosso amor, minha musa

foi como a queda de uma estrela cadente

em noite brilhante;

um raio de luz passageiro

pelas névoas escuras de meus ser;

dois olhos pretos e mais nada,

promessa de romance,

prólogo de um drama não iniciado.

Deixou em nossas alma a tênue visão,

de um momento de felicidade, êxtase,

que, suspenso o tempo, apagou-se. 17/set/60


Poema sem conclusão


Quase tudo o que é teu já foi cantado:

a placidez estudada dos teus lábios delgados,

pira onde se incendeiam meus desejos;

o devaneio profundo das tuas pupilas,

dois frutos negros perdidos na melancolia de teus olhos

diluídos nas névoas de minha alma;

a floresta dos teus cabelos negros

que ao buscá-los, intoxicado pela monotonia de meus dias,

trazem-me a paz nas sombras de suas folhagens;

o mistério que tu imprimes na harmonia dos movimentos,

o fitar dos olhos, o ligeiro tremor de teus lábios,

o trejeito de supercílios, a suavidade do teu porte. 12/set/60


Será


Ouço sons quase inaudíveis

restos, talvez, de alguma melodia desconhecida

ecoando, súbita, pelas vielas do imponderável.

Será, enfim, o chamamento aflito da razão?

Serão os primeiros albores de uma alvorada que não tarda. 15/nov/60


Hora da despedida


A hora da despedida

não será uma hora ímpar,

dorida, por agudas sensações.

O nosso amor, ó menina,

foi uma longa história

que teve sua beleza na tragicidade,

cujo apogeu foi bem antes do desfecho.

não; a hora de nossa despedida

não será uma hora única, suprema;

vai ser uma dessas hora comuns, inexpressivas

que os relógios a todo instante marcam... 07/dez/60


É uma pena que só neste momento

evaporada tanta vida desde que te conheci,

me tenha alcançado, num ocasional acesso de vislumbre,

a certeza que este mundo não é só feito

de moléculas que não as do teu próprio eu.


Sim, pois sempre me deparava,

ao termo de uma incursão temerária

nas entranhas de meu indevassável ser,

os traços indeléveis da tua onipresença,

origens fatais de minhas derrotas íntimas.


Agora, há muito findo o prazo para o regresso

vejo que sob a fisionomia desse amor não correspondido

envoltos em túnicas negras, intransponíveis

se debatiam mistos de fraqueza, orgulho, medo, vaidade....

compilado por Bicudo

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